Eu tenho um pavio curto. Todo mundo sabe disso, e tipo, não é novidade, dá de ver na cara.
Minha aparência não é muito amigável, eu sei e até uso isso em minha vantágem de vez em quando, nas ocasiões de não querer falar com alguém, embora eu, geralmente, seja uma pessoa bastante simpática e animada. Eu costumo falar que não tenho paciênca, nem tempo.
Só que em situações sérias, eu pareço que tiro paciência da bunda.
Ontem, sexta-feira à noite, eu fui dirigindo para o colégio. Eu estava meio com pressa, sabe? Então eu fui virar numa rua, e acabei mais olhando se tinha vagas para estacionar do que se vinha algum outro carro vindo. Vinha um ônibus.
Bem, foi só um arranhãozinho (sério!) na lataria do ônibus e está tudo resolvido. E a minha reclamação não é essa.
A minha reclamação é sobre um senhor, bem, quase-senhor, ele parecia estar no começo dos quarenta e sua cara gritava “Gargamel!”. Não, ele não tinha nada a ver com a situação, mas resolveu que queria ser testemunha e encher o meu saco.
Começou quando eu desci do carro de guarda-chuva, devidamente estacionada e com o pisca-alerta ligado. E me aproximei do motorista do ônibus, pedi desculpas e falei que tinha noção da minha culpa – e tinha mesmo, eu invadi a preferencial sem ao menos olhar direito para os lados. Quando cheguei na frente do motorista, o fulaninho já estava do lado falando ter visto tudo e estar disposto a testemunhar. Eu acho que ele pensava que isso era, tipo, um tribunal à la Law and Order, e estava esperando ele me algemar e falar que tudo que eu falasse poderia ser usado contra mim no julgamento.
Até aí eu tava calma. Eu admito que sou barbeira e que minhas habilidades automobilísticas não são das melhores, afinal, sou mulher, loira e não cheguei nem aos 30. Já tive minhas batidas de carro e estou começando a aprender como agir nas situações. Mas tem gente que não sabe quando não se meter e quando calar a boca. Então a conversa foi meio assim:
“a: Então, o que o senhor pretende fazer? Queres chamar a polícia?
b: Sim, eu preciso. Não deu nada no ônibus, só um arranhão, mas se eu entrar com ele assim na garagem vai sobrar pra mim.
a: Não, tudo bem. Eu entendo.
c: Por que existe gente que não deveria estar dirigindo, deveria estar no cemitério.
a: Com licença, mas eu fiz algo para o Senhor? O Senhor está me vendo criar algum problema?
c: Você tá criando problema, tá atrapalhando o trabalho dele!
a: Sim, mas em algum momento eu neguei a culpa?
c: Aposto que você nem é daqui, né?
a: Sou sim.
c: Devia voltar para onde veio!
a: Eu sou daqui, sim. Eu morei minha vida toda na mesma casa. Como tem gente grosseira nessa cidade.
b: Eu nem conheço ele!
a: Eu também não! E mesmo assim, ele acha que pode me ofender. Como se o senhor nunca tivesse feito nada de errado na vida!
c: Não fiz mesmo!
a: Ah, não mesmo, aposto que toda sua vida foi imaculada!”
Ele ainda ficou falando sobre como tinha anotado a placa do meu carro e eu fiquei me perguntando se o fato de eu estar ali em pé, de guarda-chuvas, perdendo duas aulas e com meus documentos na mão não fazia nenhuma diferença. Por que sim, é claro, vou totalmente sair correndo! Ele podia pedir meu R.G, ou meu CPF, mas não, ele achou muito mais seguro pegar a placa do carro.
Não preciso falar que depois disso, tudo foi morro à baixo, né? Eu consegui me controlar até entrar no carro novamente para esperar os policiais, aí eu comecei a chorar histericamente. Pelo lado bom, o motorista do ônibus foi bastante gentil e compreensível, tentou ser o mais educado possível e não tenho nada para falar sobre ele, além de ‘desculpas’ e ‘obrigados’.
No final das contas o senhor ficou lá até a polícia chegar, mas foi embora antes de eu assinar os documentos. Saiu me olhando e pedindo desculpas. O nome dele foi mencionado no B.O e eu juro que me forcei a não prestar atenção para não procurar onde ele mora (Deus salve google) e ele chegar em casa com uma surpresinha (leia, meu carro) em sua sala de estar. (Aí ele pode dizer que eu comprei minha carteira. Pode anotar a placa, também, se ele conseguir entrar no recinto!)
Acabei ficando duas horas estacionada numa rua do centro até o transito melhorar e fui pra casa.
Desde então, meu lado piscológico está tentando me matar.
Eu juro que está, por que amanhã as oito da manhã tenho simulado de biologia, matemática e redação. Já é uma da manhã, e eu não consigo dormir. Para melhorar, consegui perder duas borrachas no período de três horas. (Sim, eu tenho o dom!) E como eu estava falando para Camila no msn, eu sou típicamente paranóica por que sempre esqueço tudo e vivo checando se não deixei nada pra trás.
Mesmo assim eu consegui perder duas e tive que ir em milhares de supermercados atrás de outra para amanhã. Tive minha irmã louca da vida me ligando que queria sair, então voltei pra casa correndo e tremendo a cada sinaleira, com as palavras do coroa ecoando pelos meus ouvidos e morrendo de medo de multas, batidas, capotadas, atropelamentos, flashes e variantes.
Acho que não nasci para dirigir. Tenho que ter um motorista!
m: Kilians – Jealous Lover