Foi bom segurar uma caneta novamente. Como se todos os meus pensamentos se derramassem por uma pequena esfera, materializando-se em tinta. Permanente. Imortalizado. A ideia me agrada.

Foi bom segurar uma caneta novamente. De certa forma pensei que tinha perdido o jeito. Que a sonoridade não seria a mesma, as formas não seriam as mesmas… Porém, tudo se encaixou. Melhor que um quebra-cabeças, as palavras se entrelaçaram tão perfeitamente que era impossível ver onde uma começava e outra terminava.

Foi bom segurar uma caneta novamente. Enquanto minha mão deslizava sob o papel branco, meus lábios esboçavam um sorriso nostálgico e eu me perguntei como, algum dia, pude duvidar. Literatura é a minha arte, o papel é o meu canvas e as letras são as minhas tintas. Não tenho gênero. Eu misturo classes. Abraço o parnasiano, excluo o soneto, toco no simbolismo e volto. Vou aos limites da gramática, caio no pleunásmo, erro nos acentos e misturo os verbos. Delicio-me.

A vida é feita de letras; os desenhos, de círculos. Mas eu? Eu sou feita de literatura.

Sou feita de frases complexas e parágrafos grafados.  Fui, minuciosamente, construida por Wilde, Sartre, Orwell, Verne. Programada para gritar poesia, beijar estrofes e arrepiar com palavras bem escritas, derramadas não só por esferas, mas por todo tipo de coisa que fixe. Permanente. Imortal.

Minha literatura é de terceira classe. É gramáticalmente coxa.

Mas é minha.